Tabela Price: parcelas fixas do começo ao fim do financiamento

03 de March de 2026

A Tabela Price (também chamada de Sistema Francês de Amortização) é o sistema que mantém a sua parcela exatamente igual do começo ao fim do financiamento. Foi criada por Richard Price, matemático inglês do século XVIII, e até hoje é o sistema mais usado em financiamentos de carro, empréstimos pessoais e cartões. Em imóvel, ela aparece como alternativa ao SAC — e tem suas vantagens, desde que você saiba o que está aceitando.

O segredo: parcela igual, composição que muda

Na Price, a parcela é a mesma todo mês, mas o que está dentro dela muda silenciosamente. No começo, quase tudo da parcela é juros e quase nada é amortização do imóvel. Aos poucos, isso vai se invertendo: nos últimos meses, quase tudo é amortização e quase nada é juros.

Isso acontece porque o cálculo da Price faz o trabalho ao contrário do SAC: o sistema descobre qual parcela fixa equivale a pagar todo o financiamento (principal + juros) em N meses. A fórmula é matemática conhecida — toda calculadora financeira faz.

Exemplo prático

Mesmo financiamento do post sobre SAC: R$ 200.000, 240 meses, 10% a.a. (0,8% a.m.):

  • Parcela fixa Price: ≈ R$ 1.965 todo mês, do mês 1 ao 240
  • No mês 1: R$ 1.600 são juros, só R$ 365 amortizam o imóvel
  • No mês 120 (meio do contrato): R$ 1.000 juros, R$ 965 amortização
  • No mês 240 (último): R$ 14 juros, R$ 1.951 amortização

Repare como nos primeiros anos você pratica e quase não diminui sua dívida. Esse é o preço da previsibilidade.

Vantagens da Price

  • Previsibilidade total no orçamento familiar. Você sabe exatamente o que vai sair da conta todo mês até o último mês. Pra quem precisa planejar com precisão, é uma grande vantagem.
  • Parcela inicial menor que no SAC. Aquele R$ 2.433 do SAC vira R$ 1.965 na Price. Diferença de quase R$ 500 por mês no começo — o que pode ser a única forma de caber na renda exigida pelo banco.
  • Ideal pra quem espera renda crescente. Se você aposta que vai ganhar mais nos próximos anos, dá pra começar leve e amortizar quando o salário subir.

Desvantagens (e elas são reais)

O custo total da Price é maior que o do SAC no mesmo financiamento. No exemplo acima, o total pago em juros pela Price chega a cerca de R$ 271 mil, contra R$ 200 mil do SAC. R$ 71 mil a mais em juros pra ter parcelas fixas.

Outro ponto: como você devolve principal devagar, sua dívida com o banco cai lentamente nos primeiros anos. Se precisar vender o imóvel ou quitar antecipado nos primeiros 5 anos, vai descobrir que praticamente não amortizou nada — pagou só juros e pode estar devendo quase o valor original financiado.

A famosa polêmica do "anatocismo"

Você talvez ache na internet artigos dizendo que a Price é "ilegal por capitalizar juros sobre juros". Esse debate jurídico já foi enterrado pelo STJ: a Price é legal e amplamente aceita. O sistema só calcula juros sobre o saldo devedor a cada mês, sem cobrar juros sobre juros. Se algum corretor ou consultor te disser o contrário, desconfie.

Quando a Price faz mais sentido que o SAC

  • Sua renda atual é o teto que o banco aprovou — sem folga pra suportar parcela maior do SAC
  • Você prefere previsibilidade absoluta a economia futura de juros
  • Você pretende quitar o financiamento bem antes do prazo (nesse caso, o sistema escolhido importa menos)
  • Você sabe que vai usar FGTS regularmente pra amortizar (a cada 2 anos, por exemplo)

Truque pra reduzir o custo da Price

Se você escolheu Price mas quer pagar menos juros, a melhor estratégia é amortização extraordinária pedindo redução de prazo sempre que sobrar dinheiro. Isso simula o efeito do SAC: você acelera o pagamento do principal e os juros futuros somem. R$ 5 mil amortizados no início do contrato podem economizar R$ 15 mil em juros até o fim.

Resumo prático

Tabela Price = previsibilidade com custo. Se sua prioridade é parcela igual todo mês e seu orçamento não tem folga, é a escolha certa. Se você consegue absorver uma parcela inicial 25% maior, troca pelo SAC e leva pra casa uns R$ 30-70 mil de economia ao longo do contrato.

Recado importante: sempre peça as duas simulações ao banco antes de assinar. Compare CET (Custo Efetivo Total) e total de juros. Decisão informada é decisão melhor.